sábado, 27 de novembro de 2010

Giulia

Meu amor,
Minhas lágrimas pareciam não se cansar de cair. Era explícita a incompreensão de um mundo. As pessoas não conseguiam entender porque tanto eu chorava. Criticavam-me, diziam que eu era tola. Talvez, elas nunca tenham amado de verdade como eu amei e por isso, não conseguiam entender o que estava acontecendo dentro de mim. Às vezes, nem eu mesma me entendia. Era como se um lado, o lado amante, quisesse chorar até cansar e viver em profunda melancolia, na esperança de que quando as lágrimas secassem, o amor estivesse de volta. O outro, o lado louco, cansado de tanto chorar, fazia-me querer abrir o peito e tirar aquele coração que batia tão forte e gritava de tanta dor lá dentro. O louco e o amante coexistiam, divididos pelo equilíbrio de minha sanidade e razão. Decidi esperar. Não havia nada que eu pudesse fazer para curar a dor, que aos poucos, virou angústia e mais tarde, saudade...

Criei então uma personagem. Seu nome? Giulia. Era doce e meiga, mas assim como eu, ela chorava. A minha menina amava. Derramava lágrimas contra a sua vontade. Ela só queria ser feliz, mas eu, no meu egoísmo de autora, passei para ela todo o meu amor e conseqüentemente, a minha dor. Fiz Giulia chorar por muito tempo e amar por mais tempo ainda. Em minhas histórias, ela conheceu todos os tipos de sentimentos, se encantou diversas vezes e se desiludiu na mesma proporção. Certo dia, a ponta do meu lápis criou um alguém sem nome. Era moço e cativante e encantou a minha menina. Porém, esse moço era palhaço; ao mesmo tempo e com a mesma facilidade com que a fazia sorrir, a enganava. Cansada de sofrer, a menina, que já havia ganhado vida e falas próprias, pediu para que eu parasse de escrever. Ela queria um desfecho para as suas histórias; não queria mais que a minha saudade e decepção decidissem seu destino. Queria um amor de verdade, sem as palhaçadas do moço que criei. Ela estava certa, não era justo que eu a fizesse passar pelos meus sofrimentos, já que eu era a covarde por não enfrentá-los.  A minha menina Giulia me alertou para a confusão que se passava dentro de mim de novo. Resolvi lhe dar uma nova história e um final feliz , já que eu não podia ter o meu. De tanto pensar, percebi que Giulia era como o meu lado louco e não podia suportar o sofrimento. Giulia e seu novo amor, foram felizes para sempre.

Mais uma vez, eu me vi sozinha. Ah, meu amor, eu perdi o controle da situação. Lembrei então, da minha menina, que me incentivava a ver em você a pessoa boa que eu amava. Essas lembranças me trouxeram cada vez mais saudade e acenderam de novo um amor que parecia estar morto, mas não estava. A minha sanidade enlouqueceu e a minha razão tornou-se irracional. Eu não quis mais chorar; não havia mais vergonha nem tristeza, havia vontade, impulso e coragem. De repente, a linha fina que dividia em mim o lado louco e o lado amante se perdeu. Não sei portanto, se amo-te loucamente ou se sou louca de amar-te. O meu lado louco tirou-me o medo do amor e, recíproco ou não, é esse amor que alimenta a minha loucura, dando continuidade constante ao ciclo insano criado por um coração que insiste em ver em teus olhos toda a alegria do mundo. Te amo.


Lara


PS: Cheiro de livro novo é muito bom. Comprei "Orgulho e preconceito" e "Sonho de uma noite de verão". Lendo: "Para sempre Alice". 

6 comentários:

  1. Muito bom Lara!! Escrevendo muito!!!

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  2. La, esse é um dos que eu mais gosto! porque será??
    Te amo amiga, obrigada e parabens!!

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  3. subindo o niivel em! muito bom ;)

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  4. Anna Carolina Marques28 de novembro de 2010 15:29

    Que lindo, amiga!! Você escreve lindamente!

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  5. Caramba Larinha, gostei bastante da crônica e do seu jeito de escrever, tens talento e não deve desperdiçá-lo menina.
    Belo e irretocável texto.
    Beijossssss

    Tia Rê

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  6. Parabens! Gostei muito do seu jeito de escrever.... Beijos daqui da Toscana

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